Mostrando postagens com marcador Bélgica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bélgica. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de setembro de 2013

5 HISTÓRIAS A PARTIR DE 5 OBJETOS

Em diversos estilos de narrativas, objetos inanimados (ou não) tomam lugar importante no enredo da história. É comum, inclusive, vermos que os títulos dessas histórias trazem sempre um certo mistério... 


Tipo, o nome é "O Ralador de Queijo". Apesar de ser algo simples, o título ajuda a trazer diversas perguntas, uma vez que um ralador de queijo é algo banal, do nosso dia-a-dia. "O que será que esse ralador de queijo tem de especial?", "O que será feito com ele?", "Aonde ele se encaixa com os personagens?"...


Bom, claro que talvez "O Ralador de Queijo" não seja o melhor exemplo de todos, mas acho que já serve para você, leitor inteligente (sim, eu sei que você é), entenda o que quero dizer ;)


Mas vamos logo com essa bagaça e vamos começar a minha curta listinha das histórias (que eu consegui lembrar nesse exato momento) que têm objetos como parte importante do enredo...



segunda-feira, 24 de junho de 2013

CONTO POR CONTO #1: "O Amigo dos Espelhos" (Georges Rodenbach)

Narciso é um dos personagens mais interessantes da mitologia greco-romana, na minha opinião. Um cara bonito, cobiçado e que genuinamente ignorava as diversas mulheres e outros seres (acho que eram ninfas) que queriam seu amor e seu porco nu.


Um dia, ao debruçar-se para tomar água em um rio, ele depara-se pela primeira vez com o reflexo de seu rosto e ali fica admirando a sua beleza até morrer.


Passando para a psicologia, uma pessoa com Transtorno de Personalidade Narcisista é exatamente isso que caracterizava Narciso: falta de empatia, sentimento de grandiosidade e uma grande necessidade de ser admirado.



Em "O Amigo dos Espelhos", Georges Rodenbach não aborda necessariamente esse transtorno psicológico (até porque ele nem mesmo era estudado na época), mas sim uma espécie um pouco mais alucinada de Narciso.

 
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiCStK10za2nXs53pMLZ93KtNImc1h32iQZ6Wv0SubeiJB4svt43zyqV3fSRHeikjDE7UXIRu-27-UXdDbKMOvbbxgY6twZeFZ5a78IhO-tPWD1tNQGeet2EBLabOfURRmv900CpL9i1ZIj/s1600/narciso3.jpg
Narciso na mitologia
O "amigo dos espelhos" desenvolve, de fato, uma admiração enorme por sua própria imagem, fascinando-se a princípio pelos espelhos, porém ele mantém amigos pelos quais têm empatia, como por exemplo o próprio narrador da história. 


Mas com o tempo, algo o atormenta: os espelhos da rua, das vitrines, "transformam" ele em algo muito mais feio e "inferior". Consequentemente, ele se torna incapaz de encará-los.


Nosso narrador, amigo dessa espécie de Narciso, para tentar motivá-lo, sugere que os espelhos da rua são, na verdade, de péssima qualidade e era natural que qualquer pessoa parecesse menos bonita naqueles reflexos.


Isso funciona.

Quer dizer...


Dessa vez o negócio degringola: o "amigo dos espelhos" agora começa a ficar realmente obcecado por espelhos e pela sua imagem, forrando as paredes de sua casa com eles e isolando-se do convívio social. 


Nosso narrador, entretanto, continua sendo aceito na casa de reflexos. Ele descobre que seu amigo passa tanto tempo se admirando nas paredes que simplesmente não tem mais a capacidade de identificar seu reflexo como tal, e sim como outra pessoa diferente na casa. 


Além disso, ele criou seu novo círculo social: uma multidão de projeções dele mesmo que se espalham de espelho em espelho por toda a residência e com as quais tem seus "diálogos" (no caso, monólogos).      


O narrador torna-se o único que ainda o faz visitas.


Assim começou a história do "amigo dos espelhos".

Como ela termina? Leia o conto ;)


ou leia os spoilers aqui também, sei lá, pode ser... 


---------------------------------------------------------------
FINAL (SPOILERS): Aos poucos, nosso Narciso começa a ter certas alucinações e delírios quanto o "outro lado do espelho" (Lewis Carroll feelings). Inevitavelmente, ele é internado em um manicômio e seu quarto possui apenas um espelho simples com a qual acaba se acostumando. Um manhã, porém, o encontram com o crânio fraturado, aparentemente ainda agonizando, pois teria tentado entrar na marra no lugar dos espelhos. Sério.
----------------------------------------------

http://wwwdelivery.superstock.com/WI/223/1916/PreviewComp/SuperStock_1916-1972.jpg
Georges Rodenbach (1855 - 1889)
O conto não tem nem 4 páginas.


É rápido, fácil, direto, poucos escrúpulos ou floreios, só o importante para entendermos a decadente condição do "amigo dos espelhos".


A premissa também, fazendo referências óbvias à mitologia greco-romana com certeza me agradou muito.


Enfim... recomendo.







NOTA: 9 / 10 





LIVRO:
Contos de Horror do Século XIX (2005), organizado por Alberto Manguel. Companhia das Letras. Tradução: conto traduzido por Paulo Werneck.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

CONTO POR CONTO #1: "A Falsa Esther" (Pierre Louÿs)

E se, de uma hora pra outra, você começasse a suspeitar que talvez sua vida não seja exatamente isso que você presencia todos os dias, nem suas memórias, tampouco seus sonhos?

Seria estranho, certo? Mas e se, além disso tudo, você fosse, na realidade, um personagem da literatura criado por um grande escritor, com gostos e vida completamente diferentes?




Aí sim, complica, né...?


Pierre Louÿs (1870-1925), escritor belga e muito mais conhecido por suas histórias eróticas, fala exatamente sobre isso em seu conto (não-erótico), "A Falsa Esther".

http://media.paperblog.fr/i/389/3899116/pierre-louys-vend-bibliotheque-L-oVaaLY.jpeg
Pierre Louÿes (1870-1925)
Na história, alguém (o primeiro narrador) encontra um anúncio vendendo o antigo diário de uma tal Esther van Gobseck. Acontece que esse é o nome de uma personagem, uma prostituta, criada por Honoré de Balzac na obra "La Torpille".

Entretanto, descobrimos que, na verdade, o diário é de uma pessoa com exatamente o mesmo nome, mas com um estilo de vida muito diferente da Esther "original" de Balzac. 

Com o decorrer da leitura do diário, percebemos que a "falsa" Esther descobre sobre a personagem homônima e, revoltada e temendo por sua reputação, viaja à Paris para confrontar o próprio Balzac por esse "ultraje".

The Hated Son Honore De Balzac
Balzac, "criador" de Esther
O problema é que as coisas não acabam do jeito que ela esperava: o encontro com o escritor resultou em um conflito interno sobre sua própria personalidade e, aos poucos, ela vai se tornando a "verdadeira" Esther e seguindo tudo o que ela faz em "La Torpille" (incluindo o dramático final).

O conto não é dos mais fortes e o horror (afinal, estamos falando de uma coletânea de contos desse gênero) fica mais por conta do conflito e a triste decadência da "falsa" e antes comportada Esther. 

A única ressalva é que a história fica um tanto confusa na parte da revelação (?) sobre a existência de Esther, entretanto isso também pode ser apenas o reflexo dos pensamentos dela, que começam a ficar mais conturbados. 

Mas no final também é intrigante, porque nos faz refletir sobre a possibilidade de a "falsa" Esther apenas ter sofrido (ou sofrer) de algum "desvio mental" e, com toda a situação imposta, ter começado a simplesmente delirar sobre sua própria existência. 

Essa ambiguidade acaba acrescentando algo de interessante à premissa simples do conto. ;)



NOTA: 7/10



Curiosidade: Louÿs também ficou conhecido por ter promovido diversos ensaios eróticos que acabaram resultando em mais de 10000 fotografias de mulheres nuas.



LIVRO:
Contos de Horror do Século XIX (2005), organizado por Alberto Manguel. Companhia das Letras. Tradução: conto traduzido por Rosa Freire d'Aguiar.