Título: "Granta 10: MEDIDAS EXTREMAS"
Título Original: ---
Autor: Vários autores
Ano de Publicação: 2012
Ano de Publicação no Brasil: ---
Quando foi lido: 02/09/2013 - 10/12/2013
Editora: Alfaguara
Tradução: Vários tradutores
Arte da Capa: Retina_78
Número de Páginas: 299
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "A Duna" (Stephen King)
Só pra constar: a experiência foi boa, mas um pouco decepcionante. As histórias, em sua maior parte, ficaram relativamente abaixo do que eu esperava e poucas compreenderam perfeitamente o tema dessa edição da revista, "MEDIDAS EXTREMAS".
De qualquer forma, foi válido.
Agora, uma coisa vai parecer extremamente chata. Acompanhe:
- Eu, como já dito diversas vezes, sou MUITO FÃ de Stephen King.
- O último conto é de Stephen King e até então era inédito no Brasil.
- E o conto é muito bom. O melhor do livro...
E eu JURO, sério mesmo, que eu li com a maior imparcialidade, como se estivesse lendo as histórias dos outros autores que eu não conhecia e que por isso não sabia o que esperar.
Mas, infelizmente, obedecendo a todas as previsões, eu achei o melhor conto do livro. Desculpa.
Bem, a história:
Desde os dez anos de idade, o juiz Breecher costumava ir de caiaque até uma pequena ilha perto de sua casa, com o intuito de observar a pequena duna que lá se encontrava. Agora com mais de 90 anos, ele continua fazendo essa estranha atividade constantemente, sem nunca dar maiores explicações para ninguém.
| Stephen King (1947) |
No entanto, ele chama um jovem advogado, chamado Wayland, para ir à sua casa e formular seu testamento. Depois de cumprir a tarefa, Breecher conta para seu visitante toda a perturbadora história que está por trás da estranha ilha e da duna.
Não dá pra falar muito mais que isso, porque senão o enredo perde toda a graça. O que ainda posso dizer é que é um conto simples, fácil, curto e bem interessante.
O mais legal é que o desfecho da narrativa parece um pouco óbvio, previsível, depois da metade do conto. Porém, eu diria que é melhor pensar duas vezes antes de tirar conclusões precipitadas...
Por causa de toda aura mística/sinistra criada em torno da duna e pela incrível simplicidade da história...:
NOTA: 9 / 10
[e eu juro que torcia para outro autor ter o melhor conto do livro :/ ]
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara. Traduzido por: Roberto Grey.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Sofia, o Motorista e o Cobrador" (Andréa del Fuego)
Tá certo que esses casos nem sempre propiciaram grandes experiências (vide "Garimpo" e "Na varanda..."), mas só o conhecimento sobre a existência de contistas brasileiros já vale a pena, eu acho.
De qualquer forma, aí está Andréa del Fuego e "Sofia, o Motorista e o Cobrador". A autora inclusive já ganhou o Prêmio José Saramago em 2011 pelo seu romance "Os Malaquias".
Mas nada mais propício para uma história brasileira se contada no maior meio de transporte do país, certo? O cenário do conto é basicamente só o interior do ônibus durante o passar de um longo período de tempo, com pouquíssimas partes na casa do protagonista.
O cerne do conto é essencialmente a relação dele, o narrador/cobrador sem nome, com uma passageira do ônibus da linha que ele trabalha, a tal Sofia.
Nisso tudo, existem dois detalhes interessantes:
- O cobrador/narrador perdeu o olfato quando ainda era criança.
- Ele e Sofia nunca se falaram. Na verdade, sequer se olharam direito.
![]() |
| Andréa del Fuego (1975) |
E mesmo assim ele acredita fielmente que existe uma ligação silenciosa entre os dois. A partir disso, ele sofre com qualquer mínima alteração na rotina do ônibus e de Sofia, criando teorias do que estaria acontecendo com ela, mesmo sem ter A MENOR IDEIA do que ela faz de sua vida fora do ônibus.
Depois de um tempo, a coisa começa a ficar um pouco perturbadora.
De fato, as linhas de ônibus nas quais ele trabalha são toda a sua vida.
Dá um pouco de pena, mas principalmente desconforto ao reparar nessa obsessão do estranho protagonista. Ainda mais porque Sofia parece ignorar completamente sua existência.
Isso tudo que acabei de apontar são as partes positivas.
O problema é que é um conto longo, tem mais de 30 páginas.
Trinta páginas de ônibus, Sofia, motorista, cobrador. Ônibus, Sofia, motorista, cobrador. Ônibus, Sofia, motorista, cobrador.
Mesmo com um vocabulário bem simples, preciso dizer que cansou um pouco?
Eu esperava que haveria alguma coisa mais interessante, um grande plot-twist e... não foi dessa vez, tente novamente.
Não é má vontade com autores brasileiros. Porém, assim fica complicado.
[Ah, e descobri que esse conto ganhou um prêmio do Ministério da Educação em 2007. Vou ter que discordar com o Governo Federal dessa vez.]
NOTA: 6 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Realocação" (Phil Klay)
O autor Phil Klay deve saber bem disso, afinal, ele é um ex-fuzileiro americano que esteve presente durante um tempo no Iraque.
"Realocação" - o primeiro conto publicado de Klay - trata basicamente da volta de um grupo de fuzileiros aos EUA, sendo o protagonista, que narra a história em primeira pessoa, parte desse grupo.
É um conto cru e... bem, agridoce. Os absurdos relatados sobre a experiência no Iraque são revoltantes. O primeiro parágrafo do conto já me deixou sentindo uma aversão considerável quanto ao nosso protagonista:
"A gente atirava em cachorro. Não por acidente. A gente fazia de propósito, chamava de 'Operação Scooby'. Eu curto cachorro, então eu pensava bastante nisso."
Complicado, né, Sargento Price?
Mas, por incrível que pareça, esse mesmo protagonista acabou demonstrando uma profundidade muito maior do que a de um troglodita sádico. Tudo que ele viu e sentiu na sua experiência no Exército com certeza não justifica completamente esses atos atrozes, mas essas ações parecem cada vez mais pesar na sua consciência e, acredite, continuam pesando até o final do conto.
| Phil Klay |
Além disso tudo, é um conto triste. É triste e "desconfortável". Me fez pensar que, de fato, é horrível fazer tudo aquilo que fizeram com o povo iraquiano, principalmente com civis indefesos. No entanto, a maior desumanidade foi primeiramente mandar alguém para o outro lado do mundo com o intuito de matar e tiranizar outros iguais.
A tristeza é maior quando o próprio protagonista percebe que, mesmo de volta para casa, nada terá o mesmo sabor, cor e beleza que tinha antes. De volta para aqueles que os amam, voltaram homens destruídos.
Não recomendo esse conto para quem não gosta de sentir um desconforto, um peso no peito, ao ler uma história curta. Não faz chorar, mas é melancólico. Tampouco para quem decide julgar a história pelas primeiras linhas, obviamente.
Mas é interessante. É escrito em uma linguagem "menos-que-informal". Porém, a honestidade que existe naquelas linhas conseguiu me prender e me fazer refletir.
NOTA: 7,5 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara. Traduzido por: Cássio de Arantes Leite.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "À Vista do Lago" (Alice Munro)
Não deve ser muito agradável quando alguém questiona
sua sanidade ou mesmo suas faculdades mentais. Principalmente se você vê alguma
possibilidade de esse alguém estar certo. Duvidar de sua própria mente: isso
sim não deve ser nada agradável.
Pulando esse comentário introdutório, vamos ao conto de
Alice Munro. Você conhece Alice Munro? Não?!
É, eu também não conhecia. A princípio, não me
preocupei muito com isso. A autora canadense de 82 anos nunca me foi
apresentada antes. Fiquei curioso por perceber que sua obra era composta
principalmente de contos. Ok, legal.
Meu conhecimento sobre o mundo da Literatura me pareceu
um pouco mais tosco quando descobri que Alice Munro é, nada mais, nada menos, a
VENCEDORA DO PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA DE 2013.
Com esse prêmio, ela foi considerada a “mestra do conto
contemporânea”.
Como se não fosse o suficiente, a mulher ainda ganhou
outra grande honraria: o Man Booker International Prize de 2009.
Só isso.
Felizmente, eu só soube disso depois de ler o conto.
Por isso não fiquei condicionado a gostar mais nem menos da história.
Em “À Vista do Lago”, acompanhamos a protagonista Jean
que, depois de errar o dia de uma consulta ao médico, é encaminhada para um
médico especializado em idosos e memória. A clínica do tal doutor é
aparentemente em outra cidade.
Assim, no dia seguinte, ela decide ir até à cidadezinha
para já localizar o local da consulta. No entanto, ela tem grandes dificuldades
de encontrar a clínica e por isso percorre de um lado para o outro a cidade.
É claro que nada vai ser tão simples e bonitinho; as
coisas começam a parecer confusas...
| Alice Munro (1931) |
Apesar de ser um conto relativamente curto, admito que
fiquei bem incomodado com diversas passagens que, na minha visão, ficaram
demasiadamente descritivas. Essa prolixidade atrapalhou um pouco a leitura,
principalmente pelo fato de que muitas coisas extensamente descritas não serem
de suma importância para o desenvolvimento da história, da situação, cenário ou
personagem.
No entanto, a atmosfera criada nos cenários da
cidadezinha torna a experiência de leitura mais cheia de expectativas e tensão.
Tudo parece prosaico e ao mesmo tempo estranho demais.
Mesmo com um tanto de prolixidade, a história
desenvolve bem e a trama mantém o mistério de forma razoavelmente boa, até nas
oscilações de ritmo da narrativa.
O final por si só, porém, vale metade da história. Eu
realmente achei inesperado e esse fechamento é de um tom simples e sutil, ao
mesmo tempo que é perturbador...
Talvez não seja primorosa, mas é um conto interessante!
NOTA: 7,5 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara. Traduzido por: Débora Landsberg.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "A Agonia da Intimidade" (Jeanette Winterson)
Depois, claro, tudo evoluiu para o descobrimento de outras mitologias: egípcia, nórdica, celta, etc.
Mas acontece que quem conhece mitologia grega sabe que nem tudo é um mar de rosas, com batalhas épicas, histórias fantásticas e personagens cativantes. Muita coisa lá é de um gosto um tanto quanto perturbador.
A inglesa Jeanette Winterson parece ter se ligado nisso e trouxe à vida uma história um pouco peculiar, misturando erotismo, mitologia grega e críticas à sociedade.
É difícil entender em qual período histórico se passa "A Agonia da Intimidade". A princípio, parece a atualidade, mas então nos deparamos com personagens da mitologia, inclusive a presença de Zeus. Isso, estranhamente, não chegou a tornar a história confusa.
Tudo gira em torno das reflexões e angústias da protagonista e narradora sobre o que aconteceu com sua colega de escola Dafne: ela foi perseguida por Zeus e quase estuprada por ele, mas antes que isso pudesse acontecer, Gaia (deusa da Terra) a transforma em árvore. De acordo com a mitologia grega, isso de fato aconteceu com Dafne (uma ninfa), mas de forma um pouco diferente.
Enfim, então a protagonista se encontra com outras duas personagens: Leda e Helena de Troia. Elas contam suas histórias e se compadecem com nossa protagonista, discutindo sobre esse mundo onde os deuses ainda podem cometer atrocidades com as mulheres mortais.
Isso até poderia parecer uma viagem se não fosse por um momento na fala de Helena, onde ela compara tal sociedade com uma sociedade de "não responsabilidade e ao mesmo tempo de culpa".
| Jeanette Winterson (1959) |
Junto com outros momentos do conto (que tem menos de 10 páginas), podemos perceber um manifesto a favor dos direitos da mulher e sua igualdade perante aos homens.
Os "deuses-estupradores" não são responsabilizados por seus atos, enquanto as mulheres, as vítimas nesse caso, ainda têm que lidar com uma sociedade que alega que elas foram as culpadas, já que deixaram aquilo acontecer.
Além disso, o próprio título, "A Agonia da Intimidade", revela outro ponto: muitas mulheres ainda tendem a ser criadas numa cultura onde elas, apenas por serem mulheres, não podem desejar e/ou explicitar seu desejo pela intimidade ou pelo sexo, pois "boas meninas não agem assim".
Na atualidade, com tantas reivindicações feministas por uma sociedade igualitária, o conto constitui-se de uma boa leitura para reflexão, lembrando que o debate é importante e também não devemos nos inclinar a qualquer tipo de extremismo.
Continuo gostando de mitologia grega, até porque praticamente todas mitologias possuem histórias absurdas e grotescas, mas é sempre bom relembrar da parte escura de cada história, do outro lado da moeda.
Portanto, recomendo ;)
NOTA: 7 / 10
[conto em inglês na íntegra no site da autora: The Agony of Intimacy. ]
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara. Traduzido por: Débora Landsberg.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Aquele Ano Em Rishikesh" (Adriana Lisboa)
Morando atualmente nos EUA, Lisboa já ganhou inclusive grandes prêmios, como em 2003 com o Prêmio José Saramago, que é destinado a jovens escritores da língua portuguesa. Ela recebeu tal honra pelo seu romance de 2001, "Sinfonia em Branco".
"Aquele ano em Rishikesh" foi meu primeiro contato com a escritora e devo admitir que foi uma experiência curiosa e positiva.
Curiosa porque o conto, apesar de ser bem curto, começa de uma forma que me fez pensar que o seu restante seria sobre os devaneios do menino protagonista (imaginei uns 12 anos, não sei porquê), fã de Beatles e principalmente de George Harrison.
![]() |
| Adriana Lisboa (1970) |
Mas acontece que aos poucos o negócio se encaminha para focar na relação do tal menino com sua avó doente e o vínculo que eles criam um com outro, mesmo com a velha estando de cama e delirante.
E, por incrível que pareça, a força que cria e mantém tal vínculo são as canções que o menino consegue tocar em sua guitarra, aproximando a vó a partir das melodias e harmonias dos próprios Beatles, claro.
É um conto de narrativa fácil, que flui nas menos de 10 páginas. Passa bem a atmosfera tensa que a doença da avó provoca e do alívio que as músicas acabam por trazer.
É delicado e ao mesmo tempo simples de entender e de se sentir.
A única ressalva, talvez, seja o final. Não é ruim, mas acho que haveria mais impacto se o restante da história tivesse se desenvolvido mais.
Mas gostei. Recomendo.
NOTA: 7,5 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Cartas de Guerra" (António Lobo Antunes)
Acabou que, depois da Revolução dos Cravos e o consequente novo regime político em Portugal, os movimentos de independência conseguiram receberam as colônias.
O fato é que, nesses anos de conflito, o futuro escritor português António Lobo Antunes foi mandado a uma base do exército português, na Angola, para atuar como médico no período entre janeiro de 1971 e janeiro de 1973.
Ao ir para lá, ele deixava para trás sua esposa (recém haviam casado), que estava grávida de seu primeiro filho.
| A Guerra Colonial Portuguesa |
"Cartas de Guerra", então, não poderia ter um nome mais óbvio, pois trata-se de um compilado de 12 cartas enviadas por ele à sua esposa, explicando sua situação, a guerra, a saudade e o desenvolvimento de sua futura carreira literária.
Os episódios narrados por ele passam a mínima, mas perturbadora noção de como é o trabalho com os feridos e mortos no meio de um conflito. Sua saudade da esposa e da criança é evidente, com frases frequentes nos finais das cartas, por exemplo:
"Meu amor meu amor meu amor eu gosto tudo de ti."
e
"Gosto tanto tanto tanto de ti! Milhões de beijos!"
O maior "problema" do texto talvez seja sua narrativa alquebrada, como se as palavras não conseguissem acompanhar completamente o pensamento e o sentimento de Antunes na hora.
Achei engraçado que não houve uma tradução do conto: está no português europeu e não no brasileiro. Por isso, a leitura fica um pouco mais arrastada e "difícil"...
Enfim...
NOTA: 6 / 10
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Na Varanda, Sobre o Bulevar" (Everardo Norões) [WTF?]
OK, só preciso dizer que fiquei meio abismado com a aleatoriedade da história. Basicamente, é o protagonista e sua relação com Zohra, uma muçulmana que é uma espécie de empregada. Só.
Me sinto até meio burro. O negócio tem 6 páginas. E não tirei praticamente nada dele.
E, com certeza, não tem nenhuma "Medida Extrema", como supostamente deveria ter.
Só destaquei uma frase:
"Num relance, percebeu que os olhos de Zohra tinham o negror dos condenados, e por uma razão que nunca conseguiu entender ela começou a contar, num francês quase imperceptível, como havia sido repudiada."
Me decepcionei.
NOTA: 4 / 10;
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara.
domingo, 29 de setembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "A Famélica" (Don DeLillo)
Inclusive, é daí que vem a curiosa história da qual tratarei aqui e agora...
Antes de mais nada, um comentário (talvez) inútil sobre o título: eu tinha a forte impressão que a palavra "famélica" referia-se a alguma espécie de planta ou vegetal. Sério. Não faço ideia que tipo de associação eu fiz, maaaas...
Só pra constar, então, "famélica" não tem nada a ver com botânica. Na verdade, o termo é um sinônimo para "faminta" e "esfomeada". Pois é, viajei mesmo.
Bom, na história acompanhamos Leo, um cara extremamente calmo e introspectivo. Ele divorciou-se de Flory, mas mesmo assim continua morando com ela e, por muitas vezes, relacionando-se com ela (apesar de ela supostamente ter um novo namorado). Aliás, esse fato trouxe uma frase que achei interessante e quero compartilhar com você, leitor:
"Eles pararam de ter conversas significativas, dizia ela, e pararam de fazer sexo significativo."
Continuando: isso nem é a parte mais curiosa da vida de Leo: a sua rotina resumiu-se, durante diversos anos, a passar o dia todo em cinemas diferentes, olhando filmes diferentes; muitas vezes filmes estrangeiros, enormes e desconhecidos.
| Don DeLillo (1936) |
Com isso, ele começou a perceber algumas pessoas que também tinham o mesmo estilo de vida. Assim, ele descobriu a mulher "famélica", que o fascina toda a vez que a vê.
E basicamente é isso. A obra estende-se sobre esses aspectos característicos da vida do cara e na reflexão do porquê de ele ter a necessidade de passar os dias no cinema e a relação dele com a tal "famélica". Ah, e também aborda a relação singular dele com Flory e o porquê de eles não conseguirem se separar mesmo divorciados.
Achei uma leitura um pouco cansativa e prolixa em diversos pontos. Mesmo assim, esse estranho hábito melancólico de Leo acaba por impulsionar a narrativa e reaviva a curiosidade do leitor.
Portanto, na minha opinião, é um conto com falhas, meio difícil, mas com pontos interessantes no final das contas.
NOTA: 7 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara.Traduzido por Paulo Henrique Britto.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Literatura + Doença = Doença" (Roberto Bolaño)
Quem escreveu foi o paraguaio Roberto Bolãno Ávalos, falecido em 2003 e autor de alguns romances, publicados no Brasil pela Companhia das Letras, principalmente o premiado "Os Detetives Selvagens" e "2666".
Bem diferente de um romance ou qualquer tipo de narrativa de ficção, esse ensaio é basicamente uma análise da relação entre Literatura e Doença (como se o título não fosse auto-explicativo, certo?).
Dividindo o texto em algumas poucas sessões, Bolaño discorre sobre o assunto e acrescenta pontos importantes como sexo, livros, viagens e, acho que no final é um pouco isso mesmo, a morte.
É uma leitura BEM reflexiva e trás diversos trechos e informações sobre autores e poetas clássicos (principalmente franceses) para fundamentar a argumentação.
Em parte isso é bom, porque acabamos por conhecer mais nomes importantes para a Literatura. Por outro lado, o tema torna as coisas realmente depressivas e, na minha humilde e fecal opinião, excede um pouco na dose de niilismo.
| Roberto Bolaño (1953-2003) |
Claro que talvez isso se deva pelo fato de que Bolaño escreveu isso quando já estava bem doente, mas mesmo assim... não sei, é meio difícil de engolir algumas concepções tão pessimistas...
Enfim, você aprende sobre literatura, tem poemas bem interessantes e a linguagem não é tão complexa assim;
Entretanto, a linha de raciocínio por vezes é bem confusa se você não conhece Mallarmé, Rimbaud e Baudelaire e requer um olhar mais introspectivo quanto às questões da vida e da morte;
É complicado e talvez eu terei que ler e viver bem mais pra talvez entender completamente o que Bolaño queria realmente dizer...
NOTA: 6,5 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Paulina Wacht e Ari Roitman. Alfaguara.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Garimpo" (Beatriz Bracher)
Além de ter escrito alguns romances e um livro de contos, ela também já produziu alguns roteiros.
Mais um detalhe: todos os livros foram publicados pela Editora 34. E por um simples motivo: a mulher foi uma das fundadoras da editora (que eu particularmente gosto por fazerem edições muito caprichadas de clássicos russos).
Então, ela não é pouca coisa.
Infelizmente, não posso dizer que curti a primeira imersão na obra da sra. Bracher. "Garimpo" trata-se do diário fictício de uma escritora (pelo que eu entendi) brasileira que vai visitar o irmão no interior do Pará, onde ele administra minas para a extração principalmente de ouro.
Acontece que esse diário é sobre os últimos dias dela viva, pois ela acaba morrendo em um acidente de avião no trajeto de volta à São Paulo.
Isso não é spoiler, tá escrito na primeira página do conto, como se fosse a introdução da filha da escritora, que ficou por fim com o diário.
Assim, o texto é cheio de acontecimentos da viagem até o Pará e o que e quem ela encontra lá, algumas reflexões sobre a vida dela, etc.
O mais peculiar é que a narrativa está da mesma forma que estaria escrito no suposto diário: parágrafos com alinhamento estranho, palavras abreviadas, erros ortográficos e as frases nem sempre parecem seguir a velocidade do fluxo de pensamento.
| Beatriz Bracher (1961) |
Na verdade, eu acho que isso não seria um problema tão grande em outra ocasião. Mas acontece que, realmente, achei a história cansativa e monótona. Eu esperava alguma surpresa ou introspecção e... nada. E isso piorava pelo fato de eu saber o que ia acontecer no final...
É um conto relativamente grande (umas 32 páginas) e me decepcionei...
[Detalhe: Beatriz Bracher lançou há pouco uma nova coletânea, chamada.... adivinha..... "Garimpo" xD]
NOTA: 5,5 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara.
sábado, 14 de setembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "De Quem é essa História e Por Que ela não sai da Sua Cabeça" (A. M. Homes)
No final, eu estava enganado e fiquei surpreso ao perceber que aquele texto de apenas 4 páginas era, de fato, uma história.
Bom, pelo menos ela parece ser um pedaço de uma.
A. M. Homes é uma escritora americana que ficou famosa, principalmente, por seu livro chamado "The End Of Alice", no qual a história é contada pela perspectiva de um assassino e molestador de crianças.
Um pouco pesado, né?
"De quem é essa história e por que ela não sai da sua cabeça" tem um pouco desse "peso". Nas quatro páginas, descobrimos um pouco da trajetória da protagonista e de sua família.
| A. M. Homes (1961) |
É complicado falar sobre um conto tão curto. O que posso dizer é que as vidas da avó e da mãe dela foram bem complicadas. Bem complicadas e tristes.
Nossa protagonista? Bem, ela está consultando um "doutor" (creio que um psicólogo ou psiquiatra).
Por quê? Bom, porque não é muito comum uma pessoa caminhar por aí cravando espinhos de rosa nos braços e nos pés enquanto passeia pelos parques....
Enfim, é um conto legal... mas nem tanto.
Não tem nada de errado no estilo de escrita da autora. Na verdade, o conto seria muito bom se fosse mais longo e a história fosse mais desenvolvida, até porque a atmosfera criada é interessante e a premissa é boa e parece render muito mais que meras quatro páginas...
NOTA: 6,5 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara. Tradução: Angela Pessôa.
sábado, 7 de setembro de 2013
CONTO POR CONTO #3: "Como Nunca na Vida" (Evelio Rosero)
O fato é que o escritor do conto é um colombiano bem conceituado no cenário literário do país. Evelio Rosero inclusive já ganhou prêmios, pelo que me consta a parca pesquisa que fiz, no âmbito internacional: o Independent Foreign Fiction Prize, pelo seu livro, publicado no Brasil pela editora Globo, "Os exércitos".
Dada essa dica aí, vamos ao nosso conto...
Com mais ou menos 25 páginas divididas em 10 curtos capítulos, "Como nunca na vida" traz uma história, na minha visão peculiar e um tanto quanto triste. Trate-se da trajetória da jovem equatoriana Fenita, uma mulher que teve que casar a contra gosto com um homem rico, poderoso e extremamente ortodoxo, religiosamente falando.
Conhecemos ela, o marido e os dois filhos no momento em que estão fazendo uma viagem de férias a Florença, Itália. Fenita sofre mais que nunca por estar presa numa relação onde sempre está sendo vigiada e "presa" por seu marido opressor e as duas crianças (extremamente parecidas com o pai).
| Evelio Rosero (1958) |
Ela chora quase todos os dias por causa disso e a única coisa que os outros fazem é comprar mais um vestido para que ela se acalme; em nenhum momento parecem conversar ou tentar entender o que está acontecendo.
Em um passeio, entretanto, ela separa-se propositalmente do resto da família e decide olhar os "outros homens", algo que era severamente proibido com o marido tirano por perto. Assim, ela acaba se envolvendo apaixonadamente com um grego que conhece em um bar.
Porém, as coisas nem sempre são o que parecem ser (leia o conto para saber).
Enfim, Fenita volta para o Equador com um circo de pulgas atrás da orelha: ela não tem certeza se foi observada pela família enquanto estava com o grego nas férias e essa preocupação, junto com o fato de voltar para sua "prisão familiar", atormenta-a tremendamente até o ponto em que começa a sentir-se doente e sua sanidade começa a tomar um caráter altamente questionável...
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FINAL (SPOILER): Fenita, extremamente febril e arisca em sua cama, recebe uma ligação do "grego", chantageando-a a encontrar-se em um local escondido. Ela se revolta, mas percebe que precisa dele para sobreviver, afinal, foi ele o único pôde fazê-la feliz... Assim, ela prepara-se para ir e, durante o banho, percebemos que ela agora está completamente insana com a ideia do encontro: ela começa a delirar e chega a cortar todo o cabelo sem nenhum motivo aparente. Ela sai do banho e os filhos e o marido estão esperando: eles sabiam de tudo. Eles atacam ela. Ela não revida e morre.
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É um conto interessante. Ele apresenta uma mistura curiosa de elementos de reflexão, erotismo e, por fim, uma dolorosa insanidade. Por essa variedade, a narrativa possui um toque que, para mim, como já disse antes, foi bem peculiar.
Como também já disse antes, o conto traz uma certa tristeza e uma melancolia significativa. Sentimos pena de Fenita por sua vivacidade que poderia ter ser sido aproveitada, mas não foi por causa do matrimônio indesejado.
Os diversos empecilhos que ela encontra para ser feliz acaba contribuindo para o desequilíbrio que se instala depois de tudo...
Por fim, é um conto diferente. A escrita não é das mais difíceis e a narrativa aferra-se aos sentimentos da protagonista (como devia de ser).
Diferente, triste e interessante. É um bom conto.
NOTA: 8 / 10
LIVRO:
"GRANTA em Português (10): Medidas Extremas". Alfaguara. Tradução: Maria Alzira Brum Lemos.
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